Páginas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Adultério, depressão e cinzas

Locke é um filme todo ele rodado dentre de um carro confortável e equipado com a alta tecnologia moderna. Sob as luzes de uma cidade grande, seguindo por uma via altamente movimentada, algo muito antigo e livre reclama sua presença numa via em curso. Milhões de anos se passaram, até chegarmos o advento da civilização, quando passamos a viver e a nos adaptarmos a uma forma de vida muito diferente da que já tivemos bem antes. Julgamos ser este o melhor arranjo que aderimos, mas logo percebe-se que, excetuado o conforto das transformações técnico/cientificas e tecnológicas, que trouxeram mudanças e alterações para o nosso bem-estar, esse modelo de sociedade formatou determinadas regras e costumes, que já não podemos nos afastar mais delas – embora lutemos contra os impulsos da energia atrativa que nos empurra para o lastro desinibido de sua presença. Se não podemos conviver melhor com esses impulsos livres, tanto pior: a negação desses arroubos tem levado ao assombroso tipo de vida moderna medida nos cálculos exorbitantes das suas conseqüências, a saber: depressão, monotonia, medo e o fluxo regular e mortal da rotinização.

O filme mostra bem os dilemas do nosso tempo. Segundo estimativas, há um número muito grande de pessoas em todo o mundo em estado de depressão, causada por frustração no relacionamento. Quando determinados padrões de vida começam a interferir, quando as relações já não têm como horizonte um profundo desejo de compartilhar experiências duradouras e profundas,  ancoradas  num sentimento acima das suspeitas, ciúmes, medo e dúvidas; alheia à severidade normativa e suas respectivas condutas esperadas, é muito provável que se caia nos interstícios fugidios dessa cotidianidade. O ritmo da vida se apresenta fixo, rotinizado, rigoroso, tão rigoroso quanto Locke é consigo próprio. Isso denuncia aquilo que fixa regularidades da vida social;  também aquilo que a perturba.

Esse excelente filme, durante quase 85 minutos, faz cair as cinzas desses dias e não deixará nada de pé, mesmo com toda a solidez dos concretos exigidos para erigir os imponentes arranha-céus que encobrem a monotonia Moderna.

Tom Hardy, excelente ator, interpreta o personagem Ivan Locke. Empreiteiro admirado e respeitado, bem resolvido financeiramente, casado há mais de quinze anos, pai de dois filhos, parece nada mais faltar, e nada parece fora de lugar nessa família, tão bem fixada pelas regularidades da vida social, que circunscreve tão bem à normatividade predominante que nos cerca. Mas as coisas não têm a fixidez monolítica de um “bloco” que Locke conhece tão bem. E um dia desses, porém, Locke se vê premido por “consertar” um erro que ele julga nunca deveria ter acontecido. Com a consciência pesando, depois de um dia no seu rentável trabalho, decide ir de encontro ao que vem lhe atormentando há meses. Numa obra anterior, Locke se envolveu momentaneamente com sua secretária e o encontro inesperado rendeu uma gravidez indesejada. Segue-se daí que, com esse adultério, Locke já não tem mais a paz e a tranquilidade que reinava antes. Um sentimento de culpa o persegue e faz com que o nosso protagonista decida dirigir da sua cidade até Londres, pois recebeu a notícia de que naquela noite a mulher dará a luz. Locke arrisca colocar em xeque a sua estabilidade, sua reputação na empresa e no circulo de amizade em prol de que a criança tenha alguém para chamar de pai.

Pai, para Locke, é um misto forte da figura paterna projetada das normas que ela engendra, desenvolvido em nossa relação com a autoridade do pai, as instituições, a igreja, etc., levando ao reconhecimento da própria individualidade. E dela formamos, conforme o grau de introjeção, imagens de resistência ou aceitação da submissão à gramática da norma.

Enquanto segue o trajeto até o hospital, Locke precisa contar a verdade para sua esposa, lutar para não ser demitido e encarar da melhor maneira possível as consequências de um ato infiel do passado.

Enquanto segue o trajeto, Locke se vê numa procura de redenção por um ato que o levará a sentir-se o homem mais fraco e culpado do mundo. Entre diálogos constantes ao telefone, desde os funcionários da empresa, passando pela própria secretaria grávida, pela equipe do hospital, filhos e a própria esposa, Locke luta com suas convicções, como se tivesse que vencer os dragões do tempo originário do ato da consumação até que estejam verdadeiramente mortos. Seu sentimento de culpa aumenta e ele, quando não está ao telefone discutindo e dando ordens aos seus funcionários [e estes entram na trama e fazem a roda de Locke girar como se fosse uma ameaça da roda de Ixion], Locke desata a falar consigo mesmo. Mas esse monólogo não chega a ser uma reflexão de si mesmo, é muito mais para acusar-se, para dizer a ele mesmo que é um fraco, para se culpar. "Para Nietzsche, a libertação depende da reversão do sentimento de culpa" (Marcuse). Entretanto, "o problema em última instância não é a culpa, mas a incapacidade de viver. A ilusão da culpa é necessária para um animal que não pode gozar a vida, a fim de organizar a vida do desprazer", diz Norma Brown. Em nenhum momento ele duvida das suas convicções, não reflete sobre o peso que coloca sobre sua própria cabeça, que se abaterá por consequência sobre todos que o cercam. Ele não faz perguntas, e não admite que seus subordinados se dirijam a ele como se suas afirmações se parecessem como se fossem perguntas. Não, não há contingência nessa sua normatividade. Suas convicções aparecem para ele como indícios que asseguram a realidade de si e do mundo.

Entretanto, essa ilusão logo vai se smilinguido e Locke, por fim, recebe um telefone da esposa pedindo que não retorne mais ao lar. Já não tem mais lar. Silêncio completo. As únicas palavras que ficam são as da sua esposa, que  ecoam na sua cabeça, e a voz do seu filho que havia ligado para contar emocionado sobre o jogo do seu time. As lágrimas lhe escorrem pelo rosto. Locke está atônito, em completo silêncio, enquanto guia o carro pela via movimentada. As luzes da cidade e os faróis não podem lançar uma única nesga de luz em sua terrível impotência e solidão. Locke, que não nutre sentimentos, parece conduzir-se a si mesmo ao inferno. Sua dureza consigo próprio, seu sentimento de culpa e de fraqueza faz pensar que precisa ser redimido. E leva isso às ultimas consequências. A nenhum homem é exigido isso. Entretanto, erige para si um calvário, quando as flores e as águas cristalinas dessa fonte pedem apenas olhos para ver e sentir a água na garganta da sede de amor que rega e faz florir na alma. Tudo estava tão próximo, tudo estava ao lado. Locke não vê.

sábado, 13 de setembro de 2014

A política e a mobilização dos piores afetos negativos



Para os gregos antigos, que fizeram as primeiras experiências democráticas, que imaginaram as normatizações sociais reconhecidas como criação humana e do apreço à estilística, viver em sociedade significava a valorização da comunidade democrática, sendo do interesse de todos que tudo girava no campo da dimensão coletiva. Ser um cidadão da Polis significava, antes de mais nada, o direito à palavra, isto é, a expressar a sua opinião para o equilíbrio do exercício do poder. Isso fazia da política o campo inseparável da ética.

Hoje, se pensarmos o Brasil, que é o que nos interessa nesse pequeno texto, devemos nos perguntar: porque a política nossa de cada dia, essa que é feita pelos profissionais da área, por setores da imprensa e por membros de alguns partidos, está sendo sempre mobilizada pelos piores afetos possíveis? Qual é, pois, a natureza da raiva do público? Desde Espinosa, que melhor pensou a questão e a causa, afirmava que a raiva, esse afeto negativo, é perniciosa para nossa liberdade e tem o poder de diminuir a potência de agir. Estudos na área de psicologia revelam que, num nível básico, as pessoas imitam inconscientemente as expressões de um interlocutor. O efeito desse arremedo vem acompanhado de um forte contingente emocional projetado por um líder, que descarrega uma emoção forte, como a raiva, e toda a sua frequência é absorvida pelo grupo, ou grupos de pessoas, que passam a responder a partir dessa disposição emotiva negativa.

Assim, o discurso inflamado de homens públicos pode desencadear a raiva oculta entre os eleitores, que está sempre prestes a se manifestar em um líder irascível, de temperamento agastado ou com uma ideologia de exclusão que ganha então um corpo próprio e, sem controle, deixa irromper o bárbaro que ainda se alberga no ser humano.

Políticos e lideranças têm um papel essencial na lógica da imposição discursiva. Os atores sociais com um melhor preparo emotivo também são aqueles que vão instaurar os discursos a interpretarem a realidade e regerem o espaço social. Suas falas e exigências revelam um tom conciliador, procurando manter os afetos sob controle [Mathias].

O homem precisa conhecer melhor aquilo que o escraviza: o medo da liberdade, a ignorância, suas ilusões, isso tudo leva a considerar se o homem é determinado por suas circunstâncias ou forças que não pode controlar ou é livre para escolher ou optar. Espinosa afirma que a impotência do homem condicionado pelas afecções convertia-o em escravo. Sua concepção é a da conquista da liberdade pela razão e vontade, evitando distrair-se de diversas maneiras por causas externas, procurando conhecer-se essencialmente a si mesmo. É o retorno ao exercício da reflexão socrática: conhece-te a ti mesmo, para que venha saber o que ignora.

O homem é o único ser que faz perguntas a si mesmo e se sente problema. Essa atividade reflexiva dialogal consigo mesmo se faz objeto, o que permite assumir uma atitude critica e responsável pelos seus atos e sentimentos.  


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A razão não está em oposição à emoção

 

É comum alguém dizer: seja racional. Outras vezes, referindo a uma situação determinada, diz-se: use a razão e não a emoção. Quando alguém está apaixonado, diz que deveria ter seguido a razão.  São expressões bem comuns, mas nada mais equivocado para ambas as situações citadas. Nossa vida e nossas ações não cabem num manual de recomendações práticas, como se tudo que precisássemos, em determinada momento, dependendo de cada situação, fosse só sacar o manual com as indicações de uso correto, ora fazendo uso da razão, ora das emoções, tudo numa estreita observação do script, para sermos bem sucedidos. Mas as coisas não funcionam bem assim.  

Ao longo dos séculos, a razão tem sido proclamada como um dos principais meios de chegar a alguma certeza de conhecimento. Mas foi com o advento do desenvolvimento cientifico [só para nos situarmos melhor para essa pequena reflexão], que a razão deixa de ser razão iluminada, entrando numa faze de domínio, aliada da ciência, e passa a ser chamada de razão instrumental. Mas nem sempre foi assim.

Como a razão proporcionou ao homem respostas diretas e axiomáticas para muitas questões que o intrigavam e preocupavam, antigos filósofos (e muitos de períodos relativamente mais recentes) a equipararam à inteligência divina. Seu poder, se nos servirmos do mito grego para elucidar essa questão, é como o fogo que Prometeu trouxe à terra e o presenteou aos homens.

Os filósofos antigos entendiam a razão como o mais elevado dos processos mentais comuns do homem. A razão luta continuamente para unificar a experiência, uma vez que procura converter o desconhecido em conhecido. É ela que procura uma possível causa por trás dos efeitos. A mente racional é a verdadeira mente pensante. Raciocinar é analisar deliberadamente idéias e depois combiná-las numa continuidade útil e compreensível.

Entretanto, nem todo raciocínio é necessariamente pragmático, ou seja, está ligado aos aspectos práticos do dia-a-dia. O ser humano não é só razão, sabemos disso; ele traz uma outra dimensão em seu próprio interior, formando os dois mundos da sua própria unidade, a saber, o consciente e o inconsciente.  E isso, quando não sabemos mais, por conta do corte operado pela razão instrumental dos últimos séculos -, fazer uso dos dois mundos que trazemos em nossa psique [consciente/inconsciente], tendemos a ficarmos  desorientados e sem conseguir organizar nosso próprio mundo.

Mas a razão provê de fato uma orientação pessoal para a nossa vida, porque nos proporciona uma compreensão que diminui a confusão. As respostas ou soluções de nossa razão pessoal podem não ser infalíveis, mas nos proporcionam realmente pelo menos uma justificativa temporária para os atos que dela decorrem. Os atos provocados pela razão constituem um impulso íntimo, isto é, sabemos que estamos sendo impelidos pela força do nosso próprio pensamento.

Aristóteles disse que a razão ativa é um movente não-movido, ou seja, uma espécie de inteligência cósmica na qual tem existência toda forma, toda realidade. Ela move o homem e todas as coisas de modo que se manifestem, mas ela própria é não-movida. Segundo Aristóteles, essa razão ativa está infusa no ser humano e guarda uma relação divina.

Plotino, o filósofo neoplatônico, declarou que a razão contemplativa é a alma. A essência da alma, disse ele, busca a verdade contemplativa que é a prerrogativa da Razão Divina. A razão humana comum, afirmou, é o que mais se aproxima da razão contemplativa que constitui a alma. Nisso, então, podemos perceber a doutrina de que a alma e a razão contemplativa constituem um portal para a inteligência divina, em que se acredita que repousa a verdade em seu estado absoluto.

Num período relativamente mais moderno, Immanuel Kant declarou que nosso mundo apresenta três aspectos: 1) um sujeito racional e perceptivo, como o homem; 2) um mundo de fenômenos que esse ser racional percebe; 3) os objetos de pensamento em geral. Segundo Kant, a razão tenta introduzir unidade absoluta em cada um desses fatores. Em outras palavras, Kant afirmou que a razão busca a alma como o campo unificador da atividade da mente. Podemos deduzir disso que Kant sugeriu que a razão é o instrumento usado pela alma ao revelar ao homem o vislumbre que ele tem da realidade.

John Locke, filósofo inglês, em Ensaio sobre a Compreensão Humana, perguntou por que o ser humano raciocina tão mal. E ele mesmo deu três respostas para essa pergunta. Primeira: a maioria das pessoas nunca raciocina. Elas se deixam levar pelo pensamento de outras e nutrem opiniões por mera crendice e não por investigação pessoal. A autoridade alheia em que se baseia a sua crendice gera certeza, mas é perigosa porque leva a aceitação muitas vezes intolerante, fechada e dogmática.

Assim sendo, não se trata da afirmação de que a razão pode dominar a emoção, como diria muito bem Espinosa. Elas não estão em oposição. Pelo contrario. Somos razão e emoção. 

sábado, 23 de agosto de 2014

Fragmentação e o itinerário do ser


Corno qualificativo para a vida, a palavra "moderna" pode ser tida como uma armadilha semântica. Na realidade "viver moderno" e "vida moderna" são termos comumente ouvidos ou vistos em textos onde parece implicar que há alguma coisa de especial sobre a vida nesses tempos modernos, paralelamente a outros tempos. No entanto, "vida moderna” é o único tipo de vida que já existiu neste mundo de realidades. Todas as vidas, vividas anteriormente ou sendo vividas agora, foram, ou são, vida moderna. As condições circunstantes foram obviamente muito modernas relativamente a qualquer período de vida. Se nos reportarmos ao estudo da filosofia clássica, e se dele aprendemos a refletir sobre as questões mais importantes, isso se deve traduzir em que os problemas básicos humanos sempre foram, são e serão os mesmos.

As condições externas, físicas, de superfície, não permanecem as mesmas. Em particular os aspectos especiais da vida, mudaram. Antigamente, os problemas de qualquer determinada vida estavam relacionados a uma área ou espaço restritos. Logo que as circunstâncias físicas da sociedade mudaram, como meios de transporte, tecnologia e comunicações que progrediram e se expandiram, esse aspecto especial também se expandiu além da comunidade, do Estado, do país, até ter alcançado o que hoje denominamos mundo globalizado — e, talvez, esteja, agora, na iminência de alcançar uma nova dimensão e maior amplitude. Mas os problemas básicos para os quais a filosofia tem tentado encontrar respostas, são, agora, os mesmos que enfrentados e solucionados (até certo ponto) por Platão, Heráclito, Espinosa, Schopenhauer  e muitos outros.

Se o indivíduo moderno tornou-se um sujeito fractal, ao mesmo tempo subdivisível, fechado em si mesmo e consagrado a uma identidade fragmentada, se isso nos parece terrificante, dado o abandono do itinerário daquela filosofia que trazia como característica ontológica a valorização do ser, da interioridade essencial, certamente não preparamos os canais, para os nossos pensamentos e ações, que constituem a verdade básica quanto ao que é atual, real, bom - e verdadeiro. O que necessitamos, então, é retroceder, voltar a pensar o conhecimento que nos aproxime mais de uma sabedoria, pois, como diz o antigo livro dos provérbios: “a sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria”.  


domingo, 17 de agosto de 2014

Blade Runner - o presente lancinante de horizontes



Faz tempo que assisti Blade Ranner. Mas o frescor das últimas palavras de Roy, ferido mortalmente por quem nunca viu ou sentiu “lágrimas na chuva”, nunca podem ser esquecidas:

Eu tenho visto coisas que vocês humanos nem imaginam, naves de ataque em chamas na borda de Orian. Faróis brilhando na noite perto do portal de Tenhouser. E todos estes momentos vão se perder no tempo. Como? Lagrimas na chuva. Hora de morrer”.

O que atinge e perturba em Blade Runner é que ele nos lança na sensibilidade conducente de uma plenitude, de um olhar que está fora do itinerário do homem desatento da realidade lancinante do horizonte ontológico. Ser, viver e defrontar-se com o seu reverso, a morte. Sofrer uma metamorfose, tomar outra forma e fundir-se ao ritmo vertiginoso das grandes ascensões cósmicas. Mas viver é não deixar “se perder no tempo”; é ver e sentir o seu próprio acontecimento na própria eternidade do ser, é ter “visto coisas” arderem na vigília imanente da eternidade, é estar sobre o retorno de algo esquecido, porque o homem esqueceu do próprio esquecimento e por isso não se lembra da presença de uma ausência fervilhante.

Distante de ser capturado pelo inapercebido da nossa dimensão, o confronto com a imagem concreta da existência sacode o expectador que vive imerso na normopatia e o retira de uma apatia social que há muito sedimentou suas resistências à resignação, contenção, e dispersou-o nas mundividências humanas.

Assim vivendo, o cotidiano despotencializado, imerso no tempo e na rotina, não mobiliza. Adormece. Mas a eternidade, ela que se mostra em cada dobra da existência, que se deixa “ver” no invisível do visível, recolhe o véu transitório e o faz escapar a mordedura do tempo. Só então o espírito exulta de exuberância e luminosidade e recolhe sua herança primeva, e,  “brilhando” como as roxas barreiras da aurora, vê as fantásticas brigadas “de ataque em chamas”, vertendo da própria existência toda intensidade fina e cristalina. Mas “todos os momentos” - para quem não está vendo, para quem anda por essa terra como quem caminha por um deserto -, Lamenta Roy, “vão se perder” e desaparecer bem diante dos olhos, uma constatação dolorosa do extravio humano.

Num misto de gratidão [por ter “visto” e vivido “coisas que os humanos nem imaginam”] e tristeza [por ver que os homens não veem a beleza e profundidade das coisas], Roy dá o seu último suspiro em lagrimas sob a chuva que cai. Seu olhar profundo abandona seu brilho. Ao afrouxar as mãos, uma pomba branca voa e ascende a um céu e multiplica as visões da eternidade.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Soberania popular: a democracia que queremos


No Brasil, ao longo de toda a sua história, existe uma mentalidade que quer continuar um tipo de privilegio que emperra todo processo para estabelecer uma democracia real no país. Essa mentalidade, típica das elites, nunca deixou de existir. Por meio de sua força econômica, de suas alianças heteróclitas, suas manobras para manter o privilégios e a total indiferença ao sofrimento dos milhões de esfarrapados, soma-se a um outro elemento que engendra um outro mecanismo para imobilizar qualquer mudança social, ou seja, constrói-se “uma estratégia da resignação”. Ela tem um efeito perverso, na medida que é uma forma de abrandar e frenar qualquer iniciativa de alteração ou ideia de mudança no quadro social e politico. Essa tentativa resulta na desqualificação radical “da força produtora das ideias”, que possibilita que a politica venha a constituir, não o lugar e o espaço da invenção das relações sociais, como deveria ser, mas o espaço ritual de liturgias individualistas do credo liberal conservador.

Felizmente, porem, o cenário mundial (manifestações e a crise de 2008) e mesmo os avanços da educação (mesmo que lento e necessitando de muito investimento), aliado aos avanços tecnológicos têm contribuído para mudanças. A recente vinda do Papa Francisco ao Brasil, diferente dos seus antecessores, que “colocavam a política sob suspeita, alegando a eventual ideologização da fé”, trouxe um novo alento aos jovens e adultos desestimulados. Diz ele que é “uma obrigação para o cristão envolver-se na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. Ou seja, a fé não impede que cada um seja cidadão. A politica, como tem sido feito ao longo do tempo, principalmente no Brasil, é coisa de uns poucos entendidos, responsáveis por guiar nossos destinos. Ora, isso só serviu para continuação de um ciclo de desigualdades sociais ao longo dos tempos, além da despolitização e na descrença nos representantes, que legislam muita mais em seus interesses do que do povo, corrói e mina quaisquer avanços no sentido de uma democracia real.  

Rousseau já havia creditado à politica o papel da soberania popular. Só a soberania popular é soberania absoluta, perfeita e legitima. É na participação de todos que se assenta a verdadeira liberdade. Deixar que decidam por nós é “renunciar à liberdade” é “renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade, e até aos próprios deveres” diz Rousseau.  

terça-feira, 9 de julho de 2013

Partidos e a Crise da representação




A ideia de “representação” na política, desgastada e sem apresentar mais nenhuma alternativa para os problemas em sociedade, claudica ante a força e a insistência dos novos ares, mas encontra na mídia e em quase todos os partidos o velho discurso para desvirtuar a realidade inarredável.

As manifestações mostram o quanto os partidos políticos não conseguem mais traduzir a ideia de representação, tão deslocada do universo da política, mas que durou bastante tempo.

Os partidos políticos servem como propriedade privada das oligarquias. Cada região tem seus controladores, seus grupos que se apoderam do partido para fins próprios.

Querer assumir essa posição de mera representação, lugar mais apropriado ao pensamento antidemocrático moderno, bem característico da direita. O papel da esquerda, por outro lado, significa não esquecer-se de sua origem, que é revelar o real que se ocultou na imobilidade das representações. Mas ela parece não se lembrar mais disso.

Entretanto, a realidade, naquilo que Wittgenstein simboliza na figura do pato-lebre, relaciona-se com esse padrão estabelecido, mas que escorrega e se mostra a despeito de todo esforço para o controle da realidade por meio das “representações”. A realidade social, indo direto ao ponto, mesmo sob o véu ideológico (no sentido de que fala Althusser), se mentem até que se abre uma fissura e rasga o véu encoberto pela hegemonia das dominações.

“Representar significa estar no lugar de, falar por e agir por”, enquanto os representados mantêm-se dependentes, oprimidos, alienados, obedientes, encurralados, esperando receber as migalhas dos seus representantes, ou seja, a representação, se pegarmos o caso Brasil, é algo que agradaria muito a um Buke e Benjamin Constant, para quem as "elites" é quem decidem os destinos políticos dos seus representados. Ninguém mais. É ai que se aloja a dialética do senhor e do servo, bem analisada por Hegel na Fenomenologia do Espírito.

Para os grupos dominantes, com apoio de determinados setores da imprensa, com seus discursos de pretensão democrática, ecoa a voz do senhor imperial e da casa grande. Sob essa suposta limpidez da consciência senhorial internalizada, decreta-se a prisão de outras consciências não reconhecidas, que amargam o sofrimento, os gritos silenciosos da dor engastada na pobreza, na violência de todas as formas: física, psíquica e simbólica, até que o estigma de Caim (Eugênio), que persegue as consciências infelizes, avise: por onde andarem, a vida os acusará porque violaram a sua suprema sacralidade.

Essa crise de representação dos partidos políticos, portanto, pode muito bem significar o início de uma nova forma de destravar os caminhos da democracia. É o momento em que a real participação e embates entre a face instituída (as formas, regulamentos, normas estabelecidas, engessadas) e os movimentos instituintes (as forças que tensionam o instituído a produzem mudanças) encontra o seu esgotamento e abre o lugar para o instituinte.




quinta-feira, 23 de maio de 2013

A mídia como mediadora do espaço público



É sintomático a falta de discussão séria sobre o Brasil. A mídia, até alguns anos atrás, era muito elogiada pela qualidade de suas matérias, pelo alto nível das discussões debatidas, além da constante participação dos grandes intelectuais nessas questões, seja politica, educacional e artística. Passado algum tempo, porém, a mídia foi abandonando seu papel mediador de evidenciar as linhas de força que se esboçam nas transformações da atualidade e num Brasil que ainda mantém as marcas de seu passado colonial, onde instituições políticas incorporaram elementos patrimonialistas e cartorialistas da estrutura burocrática do Estado português.

O que caracteriza essa perda e esse abandono das discussões e das ideias, tão fortemente travadas em tempos atrás? Quais os motivos que levaram ao desaparecimento de suas inserções no espaço público, herdados dos ideários republicanos iluminista, responsável pelos grandes avanços dos verdadeiros valores humanos? Não resta dúvida que, ao abandonar seu papel mediador  da formação da complexidade social e histórica, além desse efeito substantivo direto, entrou em retrocesso. Agora, mais preocupada em defender interesses de grupos ou partidos, vem ocupando seu espaço com outras questões de cunho neoliberal e privatista.

Em decorrência dessas mudanças sofridas na forma de pautar as noticias e as discussões públicas, que obedecem agora muito mais aos interesses de determinados grupos, em contraste com as próprias mudanças que ocorrem com os avanços tecnológicos, que surgem como facilitadores de comunicação, da inclusão de grupos antes marginalizados, fora do exercício da democracia, alargando a capacidades de transformações, o suporte estável da comunicação, tão importante para fortalecer a democracia, ou seja, a noção de coletividade que só dá à coisa pública uma conotação política, sem os principais meios mediadores que fazem a troca de opiniões, descentralização e democratização das instancias públicas, minam a capacidade de gerar um debate crítico na esfera pública, vinculando a submissão da esfera pública a interesses privados e/ou de grupos, encobrindo e manipulando fatos da realidade social, historicamente marcada pela divisão de classes.






quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O vazio e desencantamento



Uma leitora do meu blog, se referindo a matéria sobre a crise do casamento, afirmou: “já acreditei no amor. Já amei alguém e sei como é isso. Não faria de novo”. Uma outra, não muito diferente da primeira, disse: “já amei alguém e não fui correspondida. Não valeu a pena. Só sofri. Percebi que o casamento não é nada daquilo que falam os contos de fadas".
 
Parece que as pessoas, tomando essas duas como exemplo, e isso é mais comum do que se pensa, se casam para serem felizes. É inevitável a decepção. A imagem que têm do casamento é muito mais uma imagem que formam em torno das percepções distorcidas pelas convenções sociais. Acreditam mesmo que esses modelos já prontos e formatados de casamento, vida a dois, extraídos da vida em sociedade, mais em crise que nunca, pode corresponder a suas expectativas. Como isso nunca funciona, NUNCA mesmo, o resultado é que sobram decepções, um certo ar de tristeza, um tom melancólico e amargo quando se fala em casamento.
Max Weber havia dito que vivemos e presenciamos o "desencantamento do mundo". Isto é, aquilo que constituía como experiências, como vivências pelos antigos, passou-se, com a modernidade, a um modo processual como controle prático dos resultados e de padronização da vida cotidiana. Desse modo, o processo pelo qual a natureza, a sociedade e a ação individual são crescentemente enquadradas por uma orientação voltada para o planejamento, o procedimento técnico e a ação racional (Cardoso).
Não é à toa que não temos mais necessidade de Oráculos (será?), de observar como os astros têm uma correspondência direta em relação entre os eventos celestes e terrestres. Os mitos, na nossa sociedade desencantada, cederam lugar a outros processos de organização da vida. Entretanto,nossas experiências de mundo em torno dessa estrutura não podem preencher o vazio deixado pelo abandono, naquilo que Burnout analisa como aprofundamento do sofrimento humano, trazendo ansiedade, melancolia, baixa auto-estima, sentimento de exaustão física e emocional, além de um vazio que nunca é preenchido, já que os referenciais simbólicos sofreram uma perda de suas interpretações. Como afirmou Jung, “os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique”.
É preciso realizar a cartografia dos dispositivos e das linhas de força que comportam nossa estrutura interna - na nossa psique - para que se possa chegar ao entendimento dos processos de subjetividade que constroem as vivências individuais e coletivas.

Nessa sociedade pós-moderna, carente de todas as formas de relações e de sentidos, é preciso voltarmos a estudar os mitos. Os mitos condensam experiências vividas repetidamente durante milênios, experiências típicas pelas quais passaram os humanos. A literatura, a arte, a poesia, os sonhos, os símbolos religiosos, todos compõem esse arcabouço de vividas experiências do inconsciente coletivo da humanidade.
Todas as crises - sejam quais forem elas, notadamente a do casamento - estão estreitamente ligadas a perda das mais sublimes experiências da vida. Viver e extrair essas significações subjetivas do lastro simbólico desse imenso oceano é reencantar o mundo e a si mesmo.

Assim sendo, voltando as duas leitoras acima, o casamento tal como se encontra hoje, dentro desse contexto que expusemos, não poderia mesmo dar certo. Nada os prende na relação, a não ser o medo à solidão, a dependência, a rotina, a resignação, o medo da vida. Levam uma vida que logo sedimenta com a desculpa "me acostumei" com ele e vice-versa. Ninguém consegue dar mais um passo. Ao chegar em casa do trabalho, a receptividade é fria, sem emoção. Nenhum brilho no olhar, nenhum abraço de quem já não aguentava mais esperar. Ambos não conseguem falar com a ternura e o olhar de quem vê sua outra parte: “te amo”. Fazem somente um cumprimento mecânico, sempre acompanhado de um sorriso no vácuo, um olhar de circunstância, de um mesmo destino vago. O hoje foi só mais um dia, que amanhã será igual ao ontem, sem novidade alguma, sem emoção.
Assim mesmo, percebendo e sem ter coragem de mudar, eles ritualizam a monotonia do vazio. Como disse a primeira leitora, “já acreditei no amor”. Agora, sem coragem para se aventurar ou mudar, espera a morte passivamente. A outra, a exemplo da primeira, afirma que só sofreu ao amar alguém. Só não percebe que seu martírio, o de viver com alguém que não ama, prolonga os dias intermináveis, uma longa e penosa extensão de sua fuga à sua outra metade, que a espera em algum parte, mas ela não irá ao encontro. Prefere o vazio.

 
 



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Casamento e divórcio - o dilema pós-moderno





Recebi e-mails muito interessantes a respeito do artigo que escrevi sobre casamentos e divórcios ( O fim do casamento coincide com o fim do mundo encantado ).

Uma leitora (não vou postar o nome, acho que ela quer privacidade) achou que o que “determina um casamento são as índoles de cada um. Há aquele que só casa por sexo, porque a mulher é gostosa, mas tem quem case e não consiga sustentar a casa, a família, porque não tem caráter. Querem viver casados como se fossem solteiros. E tem mulheres que não se dão um pingo de respeito”, diz ela.

Não penso que a crise do casamento e o número cada vez maior de divórcio sejam por causa das Idiossincrasias de ambas as partes. Não é somente uma conduta específica que determina a observância dessa questão.

Primeiro, para não incorrermos em erro histórico, devemos observar uma grande mudança (grande não significa boa) em relação àquilo que se constituiu como família. Ela não é mais a mesma. Sofreu mudanças muito importantes.

Antes porem, observemos uma coisa. A família pré-moderna, por exemplo, foi denominada extensa pelos historiadores e cientistas sociais. A autoridade do pai era quase absoluta, a semelhança do rei, poder-se-ia dizer. E a mulher? Ela representava somente uma peça, um objeto dessa estrutura, corpo destinado a mera reprodução da prole.

Os séculos seguintes até chegarmos às portas do século XXI, para avançarmos rápido, mudanças significativas aconteceram. Mas as mudanças não trouxeram consigo a felicidade da vida conjugal. Elas se adaptaram muito bem a uma nova estrutura do capitalismo, herdeira do inicio do advento da propriedade privada, onde a estrutura familiar e conjugal, que é onde queremos chegar, parte integrante desse móbile, não mudou. Ela obedece, agora com outra faceta, ao critério de classe e de fatores ideológicos dessa mesma sociedade capitalista.

No entanto, estamos diante do homem pós-moderno, o que significa dizer: vazio. Ele não encontra a outra margem (Gruimarâes Rosa) de si mesmo, o que o leva a pobreza da vida como modo experiencial de construção da interioridade, além da pobreza das relações intersubjetivas. O encontro emocional não lhe proporciona a vivencia experiencial de uma afetividade significadora e transcendental porque pobre. Ele administra ilusões inconscientes e teme o real da outra margem, aquela que ele teme como necessária à travessia, que lhe devolveria, se pudesse ousar dessa “ação” (Goethe), a eterna companhia de Leda e do Cisne (Goethe), ou seja, o encontro da verdadeira vida amorosa, prenhe de significações múltiplas na experiência dos esponsais.

Como se encontra agora, o que assistimos é uma espécie de ritualização padrão das relações pós-modernas: vazia, afeitas a fugazes emoções, contidas e calculadas, marca da sociedade racional-estrutural, mas sem vida. O medo é o seu correlato perfeito. Uma couraça (Reich) intransponível por fora, um vazio sem margem por dentro.

O medo às significativas experiências de Eros e Ágaphe, a entrega e a total confiança no amor, o não sentir-se amado, tudo faz parte de um medo atroz que acometeu o homem pós-moderno.  Exige-se tudo, mas sem o amor por perto. Queremos amor, mas não queremos amar. “Estamos”, como disse um grande escritor sobre esse tempo que não ousa o abraço da outra parte, “num vale de lágrimas”.



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O fim do casamento coincide com o fim do mundo encantado





É muito comum se vê e ouvir falar de casais que se separam com poucos anos de união. Há casamento que não dura um ano. Mas há aqueles que duram somente alguns meses. Seja como for, não havia nada de substancial nessas relações.

Afinal, por que os casamentos não se sustentam mais? O que está por trás dessa avalanche de separações?

Na nossa sociedade pós-moderna, marcada pelo desencantamento do mundo, pela fragmentação das consciências individuais, pelas incertezas e pela assimilação dos indivíduos ao sistema social dominante, desagregou a soma de uma série de elementos sociais que faziam parte do ideário de coletivização da vida formada a partir unidade da família nuclear.

Hoje, com a passagem de uma fase sólida dessa ideologia moderna para a fase fluida, já que não tem como manter-se por muito tempo, esta se desloca sempre na direção da fluidez e rapidez, desagregando as coisas que supostamente pareciam preencher o nosso desejo. Entretanto, se a realidade é líquida, fugaz, no instante mesmo em que realiza esse preenchimento já não serve mais, está obsoleto.

Uma das formas mais fluidas que caracterizam a modernidade líquida, ou seja, o casamento, encontra-se agora em total instabilidade. Seus ritos, tão marcadamente presentes no ideário da união conjugal, vão sendo paulatinamente preenchidos pelas relações “descompromissadas”, termo que se usa hoje para não assumir uma união duradoura, já que ela não virá mesmo, uma vez que a contingência e a instabilidade delineiam o anúncio de um outro período bem característico da sociedade pós-moderna: a incerteza.

Os casamentos, dentro dessa perspectiva, continuarão existido, mas não formarão uma comunhão matrimonial. Em si, diga-se, de passagem, a certidão de casamento não constitui um casamento. Faltam os elementos essenciais há muito tempo extintos da garantia da sua existência plena.

Os esponsais como expressão do amor, com o surgimento desse revés, assumiu forma fantasmagórica como modalidade de sociabilidade que acontece agora somente como narcisismo. O deslocamento de sentido do tempo, o medo ao envelhecimento e à morte, o fascínio pela celebridade, o fator econômico na escolha dos pares, a negação feroz da dependência ao outro.

Apartada da energia do amor, a energia sexual – que é a energia biológica construtora do aparelho psíquico que constitui a estrutura sensorial e de pensamento humano, agora declina e degrada-se, como assinala a psicologia das profundezas, na “excitação do vago”. Enfim, tudo converge para essa liquidez e suas angústias.






terça-feira, 30 de outubro de 2012

Encontro Marcado – quando todo tempo que importa é o tempo que nos é dado


ENCONTRO MARCADO 




O anjo da morte (Brad Pitt) resolve vir a este mundo para aprender com o Bill (Anthony Hopkins), o cara que o anjo já havia sondado antes de descer.
O anjo decide que vai conhecer o nosso mundo com o auxílio de um cara que ele levaria para o outro mundo assim que chegasse sua hora, o que aconteceria em poucos dias.
 Segundo ele mesmo afirma, assim que Bill pergunta quem é ele e por que está ali:
- “Imagine milênios e multiplique por eras e ciclos infinitos. É o tempo que existo. Mas só recentemente você provocou meu interesse. Pode chamar de tédio. Eu, o elemento mais duradouro e essencial da existência, tive curiosidade de te ver. Por todas as virtudes que apresentou, por isso você foi o escolhido”, responde a morte.
- Escolhido para quê? pergunta Bill
- Para me mostrar o mundo. Me servir de guia. Em troca disso você vai ganhar tempo, minutos, dias semanas, responde o Anjo da morte.
Sentindo a perturbação de Bill, a morte tenta evitar as delongas: “mas não nos prendamos a detalhes. Importa que eu continue interessado”, finaliza o anjo Louro.  
- Você é a morte? Pergunta Bill.
- Sim, responde ele.
- Vai ficar muito tempo? pergunta Bill.
- Espero que sim, responde o anjo da morte.
É com a chegada do anjo da morte que toda a vida do magnata e da família é alterada. Com isso, depois de uma conversa metafísica entre os dois, ambos chegam a um acordo para que tudo saia como a morte planejara. Bill, intrigado e tomado por tamanha surpresa, parece resignado. Mas não está com medo. Parece meio triste. Diante do inevitável, Bill o leva junto com ele para sua empresa. O anjo da morte avisa que quer ir para o trabalho do Bill a pé. Avisa que quer sair, que quer conhecer o mundo. Eles saem e se dirigem para a empresa do magnata Bill. Enquanto caminham pelas ruas cheias de gente, o Anjo está deslumbrado com este mundo e com as pessoas. Tem pressa para aprender com o seu guia, homem experiente, prático e bem sucedido, mas tem poucos dias.

A cena se move para a casa do magnata Bill, pai da linda Susan e da infantil Allison. Um jantar em família. Diante do convidado inesperado, pedem que Bill apresente o convidado. Bill vacila e não consegue, logo nos primeiros minutos, dizer quem é o convidado e qual o seu nome. Depois de uma longa pausa, pensando o que falar, Bill diz que o seu convidado se chama Joe Black. Sentam-se à mesa e começam a jantar. Joe, o anjo louro e belo, está interessadíssimo em tudo que lhe oferecem os seus sentidos. Mas uma coisa haveria de impressioná-lo e mudar o seu aprendizado aqui na terra em todos os sentidos. A belíssima Susan, médica e filha do Bill. Ele se apaixona por ela. E vice-versa.

Depois do jantar, fascinado pela encantadora Susan, Joe a procura. Ela fica surpresa com o anjo louro, parado no meio da sala a observá-la. Ela se volta para ele e diz:
 - Joe, estou com o Drew, diz ela.
- Não agora, responde ele sem culpa e como quem tem a urgência do tempo.
- Tenho de ir. Sinto por ter dito isso, diz Susan.
- Não sinta por nada, responde ele.

Ela parece surpresa e encantada com a resposta dele.

A cena se move para o interior da empresa do Bill. Joe e Bill estão no escritório. Joe está comendo um lanche. Sente todo o prazer de quem come pela primeira vez. Ele não desperdiça a chance de apreciar tudo que vê e toca.

Joe pede que Bill fale de sua esposa (que já morrera). Bill faz um relato muito emocionado sobre sua amada esposa, agora em outro mundo. Diz que não há um dia que não pense nela. Joe ouve atentamente a história. Tem todo o interesse do mundo. Ao finalizar a narração, Bill olha tristonho para o anjo da morte e fala: “que há de se fazer. Você já ouviu isso um trilhão de vezes”. O anjo responde que já ouviu muito mais de um trilhão. Joe pede que Bill conte como ele e sua amada esposa se conheceram. Ele está mais interessado no que sente, na paixão, no amor, não nas suas lamúrias. Diz que quer ouvir todos os detalhes porque isso muito lhe interessa. Bill narra todos os detalhes com um misto de tristeza e saudade. Lá pelas tantas, Drew interrompe a historia e entra na sala falando de negócios e mais negócios. Joe não gostou. Há coisas mais interessantes para se falar. Joe olha para Bill e pergunta: “por que a esta altura, se preocupa tanto com os negócios?” Bill lhe dá uma resposta nada convencional, ao responder: “Uma prova de que queremos fazer bem feito e entrar para a eternidade as nossas ações na admiração da posteridade”.

Os antigos gregos viam nas grandes ações do homem o selo gravado na eternidade. Assim como os deuses, os homens não seriam esquecidos. O esquecimento era um sinal de que a vida foi desperdiçada. Era um erro irreparável.

No jantar com a família, com a presença de todos, Bill quer fazer um discurso, mas fala que esqueceu. Diz que gostaria de falar muitas coisas. Joe está atento a tudo. Todos sentem-se emocionados pela atitude do Bill. Jantar a luz de velas, a casa imensa, confortável, o convívio alegre, champagne, sucesso financeiro, enquanto a morte se deslumbra diante da intensidade do momento. Bill disse que queria falar tanta coisa, mas não consegue e desiste. De repente, sentindo-se motivado pelo calor do entorno, sabendo que restam poucos dias para estar ali, levanta-se e propõe mais um jantar para o outro dia. As duas únicas filhas ficam extremante alegres. Algo parece mudado no ambiente familiar. E para melhor (nada como a morte ao lado, para riscar todos os desapegos e insignificâncias). Bill beija carinhosamente suas duas filhas, Susan e Allison. Joe está encantado. Tudo é importante para ele, que tem pressa de viver e aprender.
Ambos, Joe e Bill, só eles sabem que cada minuto conta e que precisa ser bem aproveitado. Bill, o pragmático e experiente, parece pensativo o tempo todo. Joe (a morte) só deseja aprender sobre a vida, conhecer.

Durante o almoço, com um ar de inocência sobre suas primeiras impressões, Joe menciona que esteve no hospital para ver a Susan. Elogia Susan e diz que ela é uma excelente médica. Drew não gosta. Bill fica intrigado com a ida de Joe ao Hospital. Lhe faz perguntas, mas Joe vive dos encantos da vida, aprecia tudo que vê, sente, toca e ouve.

Bill exige uma resposta de Joe. Quem não responde as minhas perguntas eu demito, disse Bill. Joe olha para Bill e pergunta:

- Vai me demitir, Bill? pergunta a morte.

Bill se cala impotente. Por um momento ele esqueceu-se dos limites do seu poder e de que estava falando com a morte.

Enquanto isso, na sala, logo após o almoço, Susan e Drew se desentendem. Ciúmes e antipatias a Joe encerram o almoço. Nada importante, diria a morte. Uma perca de tempo.

Susan e Drew se despendem. Susan, de olhar calmo e meigo, volta-se para trás a procura de Joe. E lá está ele. Os dois se olham. Ela caminha em sua direção. Seus passos parecem ter a leveza do momento. O olhar inclinado para o solo parece nada observar. Seus pensamentos não formulam nada. Somente algo a move por dentro e a leva em direção a Joe: a paixão.  Ao aproximar de Joe, Susan lhe pergunta:
- Há quanto tempo está ai?
Joe demora a responder. Parece embevecido pelo rosto angelical de Susan. Seus olhos brilham e revelam o que sente seu coração. Está apaixonado por Susan. Ela se aproxima mais de Joe e diz:
- Me fale mais de você, Joe. Quem é você? Que faz aqui, com o meu pai?
Pronto, ela faz as perguntas proibidas. Não por qualquer outro motivo, mas essas perguntas “quem é você”? “de onde vem?” “para onde vai?” são as sonoras perguntas que as lendas e Mitos conservaram na memória do tempo, para que ninguém ouse – quando gostar de alguém – jamais fazer essas perguntas. Vide o Mito de Eros e Psique. A história é antiquíssima, mas os erros são recorrentes.
Joe a olha fixamente. Parados no meio da sala, sob a pouca luz que vem dos abajures, seus olhos se encontram. Susan usa a pergunta clássica de quem não aguenta mais esperar.
- É casado, não é?
Ela tem um olhar meigo, seus cabelos castanhos escorrem até os ombros. Um leve sorriso ilumina seu rosto pálido e delicado. Era um sorriso ingênuo e fascinante.
- Não, não sou casado, responde ele depois de uma pausa.
Susan dá mais um passo e seus rostos ficam muito próximos um do outro. Ela parece não resistir àquele homem. Arde de desejos por ele. Por vezes estão completamente entregues. Perdidos um no olhar do outro, parece que nada mais precisam, a não ser um do outro. Estão cada vez mais próximos, quase se beijando. Intrigada (e encantada) com a beleza do anjo, ela lança outra pergunta:
- Está sozinho neste mundo?
O silêncio é quebrado por uma música de fundo, que sela de vez o que ambos já não conseguem expressar. Ela, bela como uma manhã de primavera, lábios anelantes, um olhar capaz de sacudir e envolver a própria morte. Ele, por sua vez, visivelmente perturbado por uma inundação de beleza, sentimentos que ele jamais soube que existia dentro dele, impalpável, profundo, transpassa-lhe por dentro. Seu olhar de ajo exterminador encontrou um mistério maior para si mesmo. Agora o amor o lança para além de si e do seu próprio mistério. Seu mistério, o que trazia como emblema de si mesmo, agora encontra algo maior: o amor.

Como disse Oscar Wilde: “O mistério do amor é maior que o mistério da morte.” É como se o mistério da morte se desvelasse diante do mistério do amor. A morte, assim, ficou menos misteriosa para si mesma, ao conhecer o amor.
A cena muda para uma reunião. Agora é o Drew, suas conspirações, os negócios, a empresa, a fusão com outra empresa, as burocracias dos negócios, a lógica do mercado, as intrigas, enfim, tudo aquilo que os homens, quando não estão vivendo intensamente, procuram para perder o seu precioso tempo e embotar sentimentos.
A cena é deslocada para um jantar na casa do Bill. Um jantar com toda a família. O mistério está em volta, mas Bill entedia-se e faz Allison chorar. Por pouco não estraga o jantar. Mas consegue contornar e todos voltam a sorrir. A mesa, o jantar, os pratos, os talheres, a vela acesa, a música de fundo. A vida desabrocha, a morte sorri e pede mais intensidade, pois a sua presença nos alerta que só o essencial interessa. Ela própria sorri do outro lado da mesa. O sorriso de quem conhece a urgência e a valorização do tempo. Não o tempo que não passa – o tempo daqueles que vivem só para matar o tempo – mas o tempo vivido intensamente e ininterruptamente. Como a chama da vela sobre a mesa: arde até se apagar.
Joe e Susan, logo após o jantar, passeiam dentro da casa enorme e monumental. A música de fundo, os livros na biblioteca do pai, a parca luz que vem dos abajures. Ali, tão perto um do outro, Susan, com uma voz suave e delicada, já não aguentando mais esperar, pergunta:
- Joe, posso te dar um beijo?
Eles se beijam. Ao sentir os beijos de Susan, parece extasiado. A música intensifica o momento. Joe, como quem recebe uma dádiva, diz-lhe: obrigado (pelo beijo). Eles ficam ali, sentindo a presença irrevogável um do outro. Joe está visivelmente arremessado, perpassado. A voz suave de Susan quebra o silêncio paradisíaco para fazer – outra vez - a pergunta proibida:
- Não sei quem você é.
Joe responde:
- Sou Joe. Você é a Susan. E continua:  - sinto uma fraqueza nos joelhos...foi o gosto de seus lábios e o toque de sua língua.
A cena é interrompida pela entrada de Bill na sala.
A cena move-se para a diretoria da grande empresa de Biil. Reunião de negócios. Nada ali lembra o que há muito tempo esquecemos. Como disse Heidegger, “esquecemos que esquecemos”. É no esquecimento que a morte pode nos deslocar desse perímetro e nos relembrar do que não podemos esquecer. Somente a morte tem essa urgência e esse poder.
A cena se volta para uma piscina na casa de Bill. Toda ela é de uma beleza e luxo que impressionam. Joe está à beira da piscina a contemplar-se no reflexo da água. Como Narciso, ele está encantado com o seu reflexo na água. Mas o sentido aqui é outro. Enquanto anjo encarnado, Joe, a morte, está encantado com o que este mundo pode lhe proporcionar através dos seus cinco sentidos. Está “admirado” com o mundo da matéria. Mas não faz nenhum julgamento moral ou negativo a respeito. Nenhum. Ele nos faz lembrar Blake: “energia é delicia eterna”.
Susan o surpreende se contemplando na água. (Ela diz que estava passando por perto e resolveu para em casa. Mas tudo não passava de pretexto para ver Joe).
Ao notar a presença de Susan, Joe levanta-se. Susan se encaminha em sua direção e lhe beija. Ela começa a despi-lo ali mesmo. Ele fica meio sem jeito, mas logo começa a ajudá-la a se despir. Nus como a dança nua das auroras, beijam-se ardentemente. Os corpos em fogo. Banquete na pira extática a arder no abraço dos copos nus. A luz que vem das janelas em forma de vitrais ilumina seus corpos nus. Cada olhar, cada gesto, cada toque mostra a nudez como se fosse uma obra de arte da criação, o que de fato é.
Ambos, após voltarem do ritual orgástico, ainda respirando o ar do paraíso, ficam a colher todo o sentido que vem dos seus rostos que se miram. Susan confessa a Joe que sentia como se tivesse feito amor com uma pessoa que fez amor pela primeira vez. Pergunta se ele gostou de fazer amor com ela. Ele, ao contrario dela, não faz essas perguntas inapropriadas; ele está profundamente embebido daquela experiência. Parece sentir-se como se não existisse qualquer alfabeto que possa dar conta de descrever o que sente e vê. Ela parece, neste momento, muito mais a forma padrão e estereotipada que tomou conta das relações. A total perda da inocência desses sentidos, tal como nos lembra Rilke e Nietzsche. A queda completa, diria Norma O. Brown. 


Joe mostra-se quase em êxtase. Ela parece não transcender esses limites das convenções sociais e sua experiência não alcança mais do que ocorre nos relacionamentos mornos, feitos para durar conforme as convenções. Ainda assim ela parece querer captá-lo, mas tudo que faz são tentativas vãs de abarcar aqueles momentos únicos fazendo perguntas proibidas.
- Aonde vai? pergunta ela.
- A lugar algum. Estou aqui, responde ele.
Sim, porque tudo está ali. Tudo. E todas as latitudes do momento se dissolvem no eterno presente
- Até quando? pergunta ela.
- Espero que por muito tempo, responde ele.
Resposta suficiente para alguém começar a contar os anos, meses, dias, horas e minutos. É quando começamos a nos apossarmos do outro, nos lembra Rilke.
Joe vai ao Hospital a procura de Susan, mas confunde seu horário de trabalho. Para não perder a viagem, vai conversar (pela segunda vez) com a velha doente. Ela o chama de “Obeah”, que é uma forma de xamanismo muito antigo e encontrado nas Antilhas. Seria o Pai de santo no Brasil.
Ela pede que a morte a leve embora deste mundo.
- Não, velha, estou de férias, diz ele.
- Que lugar escolheu! Responde ela com admiração e espanto.
O dialogo entre os dois é rico e impressionante. Impressionante. Diria que divide o filme em duas partes, se quisermos, mas que se complementam, já que o assunto é longo e rico. Ela o ajuda a dissuadir-se de permanecer neste mundo. Não é para ele, diz ela. No entanto, a passagem da velha é um capitulo a parte. Descreverei isso em outro momento oportuno.

Estamos nos encaminhado para a cena final

A festa de aniversario de Bill. Uma festa milionária. Até o presidente do país foi convidado.
Em meio a tanta gente, luxo e pompas, Susan e Joe se encontram no meio da festa. Como sempre, Susan quer saber quem é Joe. Isso é muito importante para ela. É recorrente. Mas também é uma coisa que acontece a quase todo mundo que se descobre gostando de alguém. É o sinal que o mito quer nos mostrar. Não pergunte. 
- Me apaixonei por um homem que não sei quem ele é, nem aonde vai, nem quando, diz Susan a Joe, ali, bem em meio da festa.
- Posso dizer quando. Esta noite, diz Joe.
Ao contrario de Susan, Joe só quer estar a cada minuto com ela, mas sem se preocupar com perguntas. Ele a quer sem reservas. Nada a perguntar. Ele só deseja ficar com ela. Não quer nunca partir. Só a quer. E isso é tudo.
- Me apaixonei por uma mulher que não quero deixar. Não quero ir embora, diz Joe.
Susan, com olhos em lágrimas, abraça Joe e lhe diz:
- Então não vá.
Ambos parecem não suportar o olhar longe do outro. O amor de ambos não encontra medida. Se abraçam em lágrimas. O silêncio leva as palavras e deixou ficar o sentido. O sentido está estampado em seus rostos que se miram.  Joe mostra o quanto a ama. A linguagem, impossível. É algo forte e desesperador. É quando as palavras não conseguem traduzir tudo o que sentimos e pensamos sobre a pessoa a quem amamos desesperadamente.  Faz-se necessária a presença da pessoa amada ao longo da jornada, para que se diga, não uma vez ou duas, mas todas as horas e dias o quanto tudo só faz sentido quando amamos.
Visivelmente emocionado e sem querer deixar Susan, ele diz:
- Sabemos tão pouco um do outro. Há tanto que devia te dizer.
- Esperarei. Vai chegar o memento. Vai chegar. Quero ficar com você, Joe, diz ela desesperadamente.
Joe fica confuso e já pensa em levar Susan para o outro mundo com ele. Vai até o escritório de Bill. Bill discorda e os dois têm um pequeno desentendimento. Na conversa entre os dois, Bill diz sabiamente a Joe:
- O amor não pode causar dano ao amado.
Joe volta do escritório de Bill, confuso e contrariado e encontra Susan na festa. Joe pega a mão de Susan e beija-a. Susan está deslumbrante. Eles conversam sobre o primeiro encontro que tiveram na lanchonete. Susan começa a chorar. Sente que é uma despedida. Pergunta entre as lágrimas se ele quer que ela o espere. Joe só pede que a deixe beijá-la. A música. O beijo. As lágrimas. A vida jorrando na sua infinitude, a festa e a celebração da sua mais completa expressividade.
Joe a beija como se fosse a primeira e última vez. Afaga seus cabelos. Ela sente o momento e diz:
- Parece um adeus... Joe, o que está havendo. Parece que estamos flutuando, diz Susan emocionada com tudo.
- Ainda estou aqui, diz Joe.
- Parece que está em outro lugar, diz ela.
- Não importa quem sou eu, diz ele para Susan.
- Diga que me ama agora, pede ela.
- Eu te amo agora e para sempre, diz ele.
Expostos à correnteza torrencial que ferve e que arde sem se ver, seus olhares parecem orbitas ígneas vindas ambas da mesma chama que os alimenta, o amor.  
Em desespero e ardendo no vórtice ciclônico, o anjo da morte silencia ante as respostas que não se encontram.  Olha para Susan e lhe diz:
- Susan, obrigado por me amar.
A festa transcorre vivamente. Bill faz um discurso. Joe, sentindo que é chegada a hora de deixar este mundo, afasta-se para contemplar melhor a grandeza daquilo tudo. Fogos estouram e clareia a noite, enquanto a música mantém viva a festa. As lágrimas escorrem pelo seu rosto. Sente que tudo é grande e maravilhoso. Ferido pelo mistério, não quer deixar este mundo, não quer deixar Susan.
Já ao lado de Bill, quando já estão prontos para partir, no limiar de uma colina, Joe olha para Bill e diz: “obrigado pelo tempo que me proporcionou”. Bill retruca: “é... é difícil largar isso tudo”. E desaparecem numa ponte curvada. 
 A morte, por um breve tempo, descobriu que queria ser vida.

Encontro marcado é O filme. É brilhante. Lindíssimo. Perfeito. 

O filme inteiro, que tem duração de três horas, é uma reflexão  constante sobre cada cena, cada diálogo. Todos os personagens têm uma importância significativa com o que acontece no entorno e com os demais, sobretudo no que diz respeito ao que gravita em torno de Joe Black e Bill. A emergência de Joe (a morte) contrasta com a indolência de Allison, que contrasta com o mau-caratismo de Drew, que contrasta com o pacato Quince, com a burocracia do mundo dos negócios. O filme nos tira do comodismo e nos leva a fazer perguntas, tais como: será que não estou deixando passar as oportunidades oferecidas pela vida? Ao fazer amor com o namorado (a), esposo (a), será que sinto como se fosse pela primeira vez (cada vez que se faz amor tem que ser única, nunca pode ser igual. Nunca)? Será que aprecio as pequenas coisas com a intensidade e a volúpia de quem sabe que as oportunidades são impares? Será que não nos privamos da muitas oportunidades que poderiam mudar nossas vidas, por medo de tentar? No entanto, diz Shakespeare: “Nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o bem que muitas vezes poderíamos obter, por medo de tentar”.

Será que tentamos? Que lutamos?

Entretanto, a luta mais inglória é aquela que nunca travamos; a coisa mais difícil é aquela que nunca fizemos, o amor maior é aquele que nunca tivemos, porque não abrimos o nosso peito e não expusemos o nosso coração. Ai o orgulho vence porque é mais forte. A vontade, frágil e debilitada, esconde-se por detrás das desculpas. Ai se perde justamente aquilo pelo qual nunca se lutou. E é justo. 

Bill, ao perceber que o relacionamento de Susan com o Drew, antes de ela conhecer Joe, é muito frio, distante, sem brilho, sem intensidade, sem amor, dá-lhe esse brilhante conselho:
Quero te ver arrebatada.
Flutuar, cantar extasiada, dançar como um dervixe.
Seja delirantemente feliz ou predisposta a ser.
Sei que parece pieguice, mas amor é paixão. Obsessão por alguém que não pode viver sem.
Cair de quatro.
Amar loucamente alguém que corresponda seu amor
Como vai encontrá-lo?
Esqueça a razão e siga o coração.
A verdade é que sem isso a vida não tem sentido.
Terminar a longa jornada sem ter amado seria como não ter vivido.
Tem que tentar.
Porque se não tentar, não terá vivido.
Fique receptiva,
Quem sabe o céu pode se abrir!

A qualquer momento o céu pode se abrir. É quando, nesses auspiciosos momentos que a vida sempre nos reserva, as fretas se abrem e lá está alguém a quem nos entregamos por completo. Sem reservas, sem perguntas.  Alguém que corresponda com a mesma intensidade e loucura todo o amor que sentimos. Os dois passam a ter a mais sublime e inefável das experiências, animados pela presença um do outro, deixando ver que um é o outro, ambos, totalmente imersos pela energia do amor, entrelaçados os corpos, seus rostos em lagrimas como se fosse o orvalho do ÉdenEstão sobre espelhos, imersos nos infindos caminhos de deleites que existem nas coisas eternas.
Só assim a vida terá valido a pena. Só assim teremos vivido.


Helder Modesto - Filósofo, escritor e professor

Contato

Nome

E-mail *

Mensagem *